Miolo #1
Janeiro está a chegar ao fim e temos uma dose de recomendações, divagações e reclamações para partilhar convosco.
ORGANIZAÇÃO, REVISÃO E ILUSTRAÇÕES: RAQUEL DIAS DA SILVA | EDITORIAL: SÓNIA COSTA | TEXTOS: SÓNIA COSTA, RITA TEIXEIRA E RAQUEL DIAS DA SILVA
UM MIOLO POR MÊS, UM EDITORIAL POR SÓNIA COSTA
Janeiro consegue ser mais longo do que as pernas da Rita, mais frio do que os pés da Sónia e mais cheio do que a cabeça nas nuvens da Raquel. O que fazer para combater a vontade louca de ficar no sofá a reclamar da vida enquanto vemos pela quinta vez O Amor Acontece ou aquele reality show exausto onde encontram o amor em duas semanas enquanto andam nus numa ilha ou casam sem nunca se terem visto? Trazemos alimento para o vosso intelecto. A Rita gosta do miolo (e tudo menos pão de leite) e devorou uns filmes com potencial nutritivo. A Sónia é mais de côdeas e acha que a vida sem rir é como uma torrada aparada: vazia e sem graça. A Raquel gosta mesmo do pão todo e deixou uma série de massas a levedar que estão prontas para levarem ao forno. Sintam-se em casa e desfrutem do recheio da nossa merenda enquanto está fresquinha.
NOTA: ARTES INCLUI CINEMA, TELEVISÃO, EXPOSIÇÕES E ESPECTÁCULOS | LETRAS INCLUI LIVROS, ARTIGOS, NOTÍCIAS E EVENTOS RELACIONADOS
CÔDEA DA SÓNIA
ARTES
Fui no dia 25 de Janeiro ver Pata de Ganso, o novo espectáculo ao vivo do Pedro Teixeira da Mota. Sabiam que pata de ganso é o nome de um conjunto de três tendões musculares na parte traseira do joelho? Eu não sabia, mas fiquei a saber. Também aprendi a melhor maneira de escapar a uma Operação STOP, como fingir que estamos a perceber um filme e o que fazer quando o pai nos apanha a fumar na varanda. Maior do que as duas patas de ganso presentes em palco só mesmo o à-vontade do Pedro, gloriosamente sozinho frente a um Campo Pequeno cheio, na primeira das quatro datas esgotadas em Lisboa1.
Vi também Uma Nêspera no Cu, com Bruno Nogueira, Nuno Markl e Filipe Melo, e admito que temi pelo casamento do Salvador Martinha, pela carreira musical do Camané e pelo dedo grande do pé da Inês Aires Pereira.
Ainda na onda da piada, porque precisamos de nos rir neste Janeiro que está a durar mais do que o tempo entre temporadas de Stranger Things, uma sugestão para verem no conforto dos sofás: Suar do Bigode, espectáculo da Bumba na Fofinha, está disponível em streaming por 10€ ou 12,50€. Aproveitem, que eu vi ao vivo por esta altura no ano passado e ri-me que nem uma maluca.
LETRAS
Voltei a pegar no último da saga do Senhor dos Anéis mas não levei a irmandade muito longe. Ficaram ali pela Terra dos Mortos ou dos Espíritos, perseguidos por um exército de almas penadas em busca de vingança (ainda sem Frodo e Sam, que continuam a jornada sozinhos com um certo anel muito poderoso).
Deixei de lado os hobbits e o cabelo loiro platinado do Legolas para pegar no The Hating Game, de Sally Thorne. O Joshua não me conquistou porque achei que pintar as paredes do quarto da cor dos olhos da Lucy realmente era escusado e a roçar o lamechas. A Lucy também não ficou a morar no anexo para personagens queridas que construí no meu subconsciente. Aproveitar-se dos sentimentos do pobre Danny para lhe pedir favores laborais não foi simpático.
No fim do livro percebi que não o detestei. Só senti que a Sally podia poupar-se mais nas metáforas porque quando encarrilha na divagação mete a quinta e vai por aí fora numa sucessão de nonsense meio lame.
Adiante, vou voltar à Terra Média. Tenho um anel para ajudar a destruir e uma série de orcs a abater.
CÔDEA DA RITA
ARTES
Quem me conhece, sabe que sou obcecada pelos Óscares e portanto estamos em fase de ver tudo o que foi nomeado, antes da cerimónia em Março.
Para além do fenómeno Barbenheimer, que a este ponto acho que aproximadamente toda a gente do planeta já viu, posso recomendar Past Lives, da realizadora Celine Song. É sobre dois amigos de infância que são separados pela vida e pela distância e que, anos mais tarde, reconectam-se em Nova Iorque. Eu não sou de chorar, mas aviso que é uma história que afectou até o meu conhecido coração frio, portanto recomendo o filme e lenços à mão.
Vi também, finalmente!, o novo de Martin Scorsese. Killers of the Flower Moon, baseado no livro do mesmo nome. Tem um elenco de luxo (DiCaprio, De Niro e uma performance devastadora de Lily Gladstone, cuja campanha para o Óscar estou neste momento a gerir), e uma história importante e dolorosa. Tem também três horas e meia de duração que, embora passem relativamente rápido (porque o filme e a edição de Thelma Schoonmaker são fantásticos), continuam a ser três horas e meia – portanto, fica a recomendação e o aviso.
Fora dos Óscares, vi a comédia romântica Anyone But You, com Glenn Powell e Sydney Sweeney. Apesar de céptica, acabei por gostar muito. Não é um filme revolucionário, mas também não está a tentar ser. É uma entrada merecedora no género das comédias românticas (que, por alguma razão, raramente se fazem hoje em dia), o par principal tem química de sobra, e o guião é ridículo como se quer.
No mundo do pequeno ecrã, e porque eu contenho multitudes, não sei se pode ser considerada uma recomendação, mas tenho andado a rever uma das séries icónicas da minha adolescência: Gossip Girl. Se é objectivamente uma boa série? Não propriamente, apesar de eu conseguir argumentar a favor das duas primeiras temporadas. Se é total e completamente viciante mesmo 15 anos mais tarde? Claro.
LETRAS
Dei a mim própria o objectivo de ler 60 livros em 2024, porque ter um objectivo me ajuda a continuar a ler e porque adoro uma boa competição comigo mesma. Vou em cinco lidos, que o Goodreads me informa ser um a mais do que o necessário.
Comecei o ano com uma leitura pequena, mas que realmente me tocou: What You Are Looking For Is in the Library, de Michiko Aoyama, com tradução de Alison Watts. Quando comprei o livro, admito que foi pela capa, que achei adorável e me fez crer que seria uma leitura muito cozy. Depois de ler, acho que foi uma leitura sobre depressão? Mas assim num tom esperançoso.
Depois parti para o meu género favorito: fantasia. The Final Empire, primeiro de uma trilogia de Brandon Sanderson (que aparentemente escreve mil livros por ano, e será que pode dar umas dicas ao amigo George R.R. Martin?). Se um livro começa com um mapa e no fim ainda tem um guia de worldbuilding, é certamente um livro feito para mim. Portanto, não será uma surpresa ter gostado muito: denso em detalhes (como eu gosto), mas com uma história dinâmica e personagens que me deixaram investida. Já tenho os outros livros da trilogia cá em casa e estou muito curiosa para lhes deitar a mão.
Entretanto atirei-me a Ruthless Vows, de Rebecca Ross, sequela de Divine Rivals, que em 2023 foi um dos queridinhos do bookstagram. Já tinha tido uma opinião pouco popular sobre o primeiro livro (gostei, mas não adorei, e tenho notas a fazer), e assim é sobre este segundo. Por um lado, devorei-o num dia e meio, porque a vossa amiga adora binge-reading. Por outro, achei que a história falhou em vários pontos: precisava de mais emoção no romance, e mais detalhes no enredo. Talvez fantasia não seja o melhor género para a autora, porque francamente não parece assim tão interessada nessa parte. Ainda assim, a escrita é, de facto, linda e muito poética.
Também li Powerless, de Lauren Roberts, que me tinha sido muito recomendado. Não gostei. Fica só a dica que se quiserem ler os Hunger Games, então leiam só os Hunger Games.
Para não acabar o mês numa nota negativa, fiz uma leitura conjunta de Last Night at the Telegraph Club, de Malinda Lo. Passa-se na Chinatown de São Francisco nos anos 50. A história de auto-descoberta da protagonista Lily é querida e tem bons momentos, mas eu estava mais interessada nas ramificações políticas que foram insinuadas e pouco exploradas. Admito que isto é um problema meu e não do livro, que é muito bem conseguido na história que pretende contar.
Por fim, e para acabar este testamento, notar que comecei a minha releitura da saga A Song of Ice and Fire (os livros do Game of Thrones), desta vez em inglês. Obcecada que sou por este mundo, estou a adorar e vivo na eterna esperança (ainda que rídicula) que o senhor George alguma vez nos dê The Winds of Winter (reparem que já nem peço por A Dream of Spring, não sou assim tão sonhadora) ou quiçá uma lista por pontinhos do que é que acontece no fim só para eu poder dizer que estava certa e atirar à cara de certas partes do fandom.
CÔDEA DA RAQUEL
ARTES
Não sou a maior consumidora de cinema, aqui me confesso, mas vi recentemente Rebel Moon: Part One – The Child of Fire, que é basicamente um set-up com pouco mais de duas horas (mas sim, gostei; processem-me, se quiserem); e The Creator, que me deixou frustrada, porque é fixe, mas não é “o melhor filme de ficção-científica da última década” como diz o anúncio que anda a passar na Fox, e senti-me emocionalmente manipulada pela trope do robô-criança que o protagonista vai obviamente proteger até ao fim, apesar de odiar a IA e não ter tempo para criar uma verdadeira relação afectiva. Se ainda assim recomendo? Óbvio: fez-me chorar e eu não resisto.
Sobre séries, provavelmente vejo mais do que devia, então fica difícil saber a quantas ando, mas terminei a quarta temporada de For All Mankind e quero dizer-vos que, se ainda não começaram sequer a primeira, vos estou a julgar. É só uma das melhores séries da Apple TV e uma das melhores de ficção científica que anda por aí (prometo que não estou a passar publicidade enganosa como a Fox). Passa-se num mundo em que foi a URSS a primeira a chegar à Lua e não os EUA. Basicamente a corrida ao espaço entre estas duas superpotências nunca terminou, tal como a Guerra Fria, e ambos os países continuam a apostar na exploração espacial. E sim, o meu coração partiu-se várias vezes, em vários episódios, e dei por mim a precisar de uma caixa de lenços e uma pausa para respirar.
Ainda na Apple TV, também recomendo Foundation, que adapta a saga de ficção científica de Isaac Asimov e passa-se num futuro longínquo, no Império Galáctico, que começa a dar sinais de decadência. Há imensos personagens e plot lines, mas à laia de resumo, um grupo de pessoas liderado por um cientista, o Hari Seldon, apercebe-se que, para salvar o Império da destruição anunciada e, mais importante, a humanidade, é preciso fazer escolhas difíceis. Deixo só um aviso: é preciso estar atento, porque não é propriamente uma escolha de domingo à tarde e não interessa se já leram os livros porque não é uma adaptação fiel (não, não estou chateada; prometo que vale a pena na mesma).
No campeonato do teatro, fui ver o concerto-espectáculo Sophia, um projecto de Gira Sol Azul, com direcção cénica de Joana Craveiro. Escrevi um artigo para a Time Out, depois de ter ido a um ensaio, e acabei por levar uma sobrinha à estreia. Infelizmente, já não está em cena em Lisboa, mas acho que vale a pena ficar de olho no trabalho de Ana Bento e Bruno Pinto, que assinam a ideia e a música.
LETRAS
A minha primeira leitura do mês foi Está Tudo Bem, de Cecilia Rabess. Devorei em duas noites. Pensei que seria romântico, mas aviso já que não é. A história desenvolve-se em torno da relação de Jess, uma mulher negra de esquerda, e Josh, um homem branco de direita, e debruça-se sobre temas como o racismo, o sexismo e o privilégio de classe. A acção compreende um período que vai de 2008 a 2016 – apanha a eleição de Barack Obama e depois a de Donald Trump para presidente dos EUA –, e há uma crítica óbvia às pessoas em posições de poder que, por não serem afectadas pelo sistema, desvalorizam o sofrimento dos menos afortunados. Mas admito, continuo sem perceber se gostei. Por um lado, estive o tempo todo a querer saber o que ia acontecer. Por outro, o fim… caraças, não vos consigo explicar o quão queria que a Jess tivesse sido capaz de mandar tudo às urtigas antes de lá chegarmos.
Entretanto, cruzei-me com um desafio literário no Storygraph (provavelmente a melhor alternativa ao Goodreads), e decidi que vou tentar cumprir. A ideia é ler 36 livros de autores não-brancos e há três prompts por mês. Se quiserem saber mais, basta lerem este post no Instagram, que explica tudo. Este mês, só consegui fazer check ao prompt B (livros escritos por pessoas da América Latina), com a leitura de Mulheres de Sal, de Gabriela Garcia2, mas tenciono fazer bingo completo, mesmo que tenha de ler mais livros por mês do que seria suposto.
Como tenho a mania, também quero desafiar-me a ler pelo menos dez livros de autores portugueses, incluindo Dulce Maria Cardoso (li O Retorno no ano passado e tenho praticamente todos os outros livros da autora na estante), Susana Moreira Marques (já li Agora e Na Hora da Nossa Morte e Lenços Pretos, Brincos de Ouro e Chapéus de Palha, e sou assumidamente fã) e Djaimilia Pereira de Almeida (tenho o Luanda, Lisboa, Paraíso à minha espera há mais tempo do que gostaria de admitir). Mas antes, preciso de terminar duas leituras – O Dia Antes da Revolução e Outros Contos e A Ficção Como Cesta: Uma Teoria e Outros Textos, ambos escritos por Ursula K. Le Guin –, para o Ursula Reading Club, a que me juntei no ano passado.3
Além de livros, tenho lido muitos jornais, sobretudo o The New York Times, que subscrevi por um ano depois de ter encontrado uma promoção incrível (em vez de 90€, paguei apenas 20€). Vale a pena estar atento e, se puderem e tiverem interesse, recomendo muito. Os artigos da secção dedicada a literatura são óptimos, a app para telemóvel é muito agradável e, se são tão cromos como eu, vão adorar os jogos (estou viciada no Wordle; mas, se preferirem em português, o Observador tem o Abrapalavra, que é gratuito).
Chegámos ao fim do primeiro Miolo. Se chegaste até aqui (mesmo que tenhas saltado parágrafos ou revirado os olhos ou bocejado uma vez ou outra), estamos mesmo muito agradecidas. Esperamos ter-te cá de volta, em Fevereiro.
Há datas para o Porto, Barreiro, Aveiro, Benavente e Braga, por isso se quiserem ir muito ver, de certeza que se arranja qualquer coisa. SC
É sobre gerações de mulheres e como nem sempre as mães são capazes de salvar as suas filhas. A narrativa anda para trás e para a frente e passa-se entre Cuba, o México e os EUA. RDS
Cruzei-me com o Ursula Reading Club por acaso no Instagram e achei tão fixe que fiz pitch de um artigo sobre clubes de leitura temáticos em Lisboa. Podem descobrir mais na abertura de Livros da edição da revista Time Out Lisboa que está actualmente nas bancas. RDS


















