ORGANIZAÇÃO E REVISÃO: RAQUEL DIAS DA SILVA | EDITORIAL: SÓNIA COSTA | TEXTOS: RAQUEL DIAS DA SILVA, RITA TEIXEIRA E SÓNIA COSTA.
EDITORIAL
Ora viva, baguetes de cereais e pãezinhos de queijo. Este editorial do Miolo é escrito nas nuvens. Também elas se parecem muito com miolo de pãozinho mal cozido, ou não?
Lá fora há, como diz o meu pai, tiros e bombas e murros nas trombas. Cá dentro não nos resta muito senão aprovisionar como podemos – com boas leituras, adaptações de qualidade inferior, filmes na corrida a vários prémios, piadas contadas de pé ou ouvidas sentadas, pitéus doces e salgados e muitos amigos à volta.
Não vamos conseguir mudar o panorama político internacional (embora a Raquel tivesse inteligência e genica, a Rita tivesse cultura e argumentos e eu…. ahhhhhh…. eu ia apoiá-las e vaiar todos os homens brancos com mais de cinquenta anos, talvez mandar umas piadas sobre cobiçar territórios e petróleo alheio para compensar emoções recalcadas e miudezas realmente miúdas), mas fazemos o nosso melhor para vos trazer as melhores recomendações deste primeiro trimestre do ano.
Além disso, quando nos voltarem a ler já é (quase) Primavera!
CÔDEA DA RAQUEL
Nem acredito que já vamos a meio de Março e que, entretanto, não só tenho mais um ano de vida como a minha filha celebrou o seu primeiro ano de vida (bem, nós celebrámos, porque ela, a bem da verdade, nem sequer sabe o que anda aqui a fazer – nós também não, mas enfim, como se costuma dizer, fake it until you make it).
Fevereiro foi um mês muito bonito. Já fiz o resumo na minha newsletter, não me vou repetir. Partilho antes, em formato de lista, os verdadeiros destaques:
O restaurante indiano o João Azevedo recomendou e tratou de marcar para o primeiro jantar do meu clube de leitura. Quero muito repetir – se for na mesma companhia, melhor ainda.
Nunca li o livro no qual este filme é baseado (Hamnet, de Maggie O’Farrel), mas só andava a ouvir muito bem, e decidi ir tirar as teimas. Escusado será dizer que saí da sala a chorar baba e ranho. Mas quer dizer, eu devia ter suspeitado logo quando o William Shakespeare (Paul Mescal) se põe a contar o mito de Orfeu e Eurídice. Recomendo mesmo, mesmo muito.
Livraria Rialto6
Fui em trabalho à Rialto6, para escrever sobre a nova livraria no piso -1, e acabei também fascinada pela galeria, que me levou a uma espiral de pesquisa sobre arte, inclusive sobre o artista João Maria Gusmão, que a coleccionadora Maria João Santos mencionou durante a nossa conversa.
A Escrita Como Uma Faca de Annie Ernaux
Foi o livro de Fevereiro para o meu clube de leitura. Em contraste com a escrita de Elena Ferrante, que achei mais densa e filosófica, a de Ernaux é bastante coloquial, portanto mais acessível. Além disso, também me relacionei mais com a forma como a autora aborda o ofício da escrita, embora ambas tenham vários entendimentos em comum.
Uma ilustração emoldurada e um tote bag da Marta Nunes
Já sigo o trabalho da Marta há mais de um ano. Ela ter começado a participar no meu clube de leitura foi só o empurrão de que eu precisava para fazer o investimento, e estou mesmo muito feliz com a ilustração que escolhi, uma edição única e emoldurada, colorida manualmente com acrílico e grafite, em formato A4, e que integra a colecção “25 dias para a liberdade”.
Esperem… achavam que já estava? A minha grande recomendação é esta:
Mas quando é que vai acontecer outra vez? Amigues, façam-se à vida, descubram, não percam o comboio.
DESRECOMENDAÇÕES
Doenças no geral. Estou farta de ter a minha filha doente e de ficar doente logo a seguir, vezes e vezes consecutivas. Já não aguento o infectário, estou capaz de encomendar um serviço de exterminação de creches…
“Wuthering Heights”. A minha desrecomendação não é, obviamente, o livro – que amo de morte e que colecciono em diferentes edições –, mas o filme, que fui ver ao cinema no dia da estreia e me fez, muito resumidamente, espumar da boca. Não percebo a insistência em chamar-lhe adaptação ou reinterpretação, porque nem uma nem outra. RIP (mas é Rot in punishment porque a Fennel não merece paz).
CÔDEA DA RITA
Então, na semana passada fui aos Estados Unidos. Sim, apanhei o avião precisamente no dia a seguir aos eventos noticiosos do momento. Esforcei-me muito o tempo inteiro para ignorar o contexto sócio-político mundial que a Sónia referiu ali no editorial. Foi viagem de trabalho, para que conste. E estou a incluir esta parte aqui na secção das recomendações porque, olhem, de forma egoísta, foi uma semana bem passada. Quero dizer, estive jet-lagged o tempo inteiro e passei a maior parte do tempo em eventos de trabalho.
Mas (e esta é a parte importante): estava a nevar. Malta, vi neve a cair em Boston. Tal e qual cena de filme. Rodopiei na histórica Newbury Street de Boston enquanto a neve caía. Apanhei flocos de neve nas minhas mãozinhas. Os meus colegas de Boston estavam todos muito fartos da neve, mas para mim foi um bocadinho de magia.
E claro, a minha paragem prioritária foi a Trident Booksellers também na Newbury Street, uma livraria que já tinha visitado da última vez que estive por terras americanas. Com um café muito cozy incluído no espaço, merch de Taylor Swift, e muitas edições especiais e lindas de muitos livros que eu gosto. Acabei por comprar uma edição especial de Red Rising de Pierce Brown com umas ilustrações lindíssimas, e uma edição de Little Women de Louisa May Alcott com fotos do filme de 2019 (que eu amo) incluídas. Tentei encontrar uma edição de Wuthering Heights que a Raquel ainda não tivesse e falhei.


[Carreguem em cima para as ver em toda a sua glória.]
Não tenho lido muito. Não sei bem porquê, mas desconfio estar a passar demasiado tempo no Archive of Our Own. Mas finalmente deitei as mãos ao Empire of the Dawn de Jay Kristoff, o último livro na trilogia Empire of the Vampire. Um livro pesado, assim a rondar as 800 páginas, que devorei num par de dias como é meu costume. Mais uma vez fiquei agarrada aos twists and turns deste livro de dark fantasy — e é dark mesmo, a minha grande teoria antes de ler o livro é que toda a gente ia morrer. Não comento se foi isso que aconteceu ou não, mas embora tenha gostado muito do livro no seu todo, fiquei um tanto ou quanto frustrada.
O outro livro que li foi No Friend to This House da Natalie Haynes, que descobri enquanto vagueava a Bertrand mais próxima. Acho que já sabem isto sobre mim, mas eu vejo um retelling de mitologia grega centrado numa personagem feminina mal interpretada e vilanizada há milénios e tenho que o comprar e ler imediatamente. Desta feita, No Friend to This House centra-se na Medea — sim, a feiticeira que ajuda Jason a roubar o tosão de ouro, mata o irmão, casa com Jason, e depois assassina os filhos de ambos. E acabei o livro a pensar, coitada.
No que toca à minha estação favorita, awards season, finalmente vi mais alguns dos filmes envolvidos:
Sentimental Value, realizado pelo noroeguês Joachim Trier (também fez The Worst Person in the World) e com um elenco de luxo, encheu-me as medidas. Para um filme em que tão pouco acontece, conseguiu manter-me atenta o tempo todo e deixar-me a pensar quando acabou. Adoro a Renate Reinsve, a Inga Ibsdotter Lilleaas é uma revelação (votaria nela para Melhor Actriz Secundária), o Stellan Skarsgård é supremo como habitual, e a minha amiga de longa data Elle Fanning faz muito com um papel um bocado ingrato.
Marty Supreme, realizado por um dos Safdies (não me lembro qual e não me apetece ir ao Google) e com o Timmy no papel principal. Sim, sinto que eu e o Timothée Chalamet somos próximos o suficiente para o tratar por Timmy. Um filme de pingue-pongue em que tudo acontece. Literalmente tudo. Quando pensas que já nada pode acontecer, acontecem mais cinquenta coisas. Estive no metafórico e por vezes literal edge of my seat o tempo inteiro. Banda sonora excelente, Timmy num papelão, e uma Gwyneth Paltrow muito bem utilizada.
No mundo televisivo, tenho uma confissão a fazer. Ainda não vi A Knight of the Seven Kingdoms, a mais recente série do mundo de Game of Thrones. Mas pessoas em quem confio (os meus mutuals do Twitter, portanto1) garantem que é muito boa, melhor do que House of the Dragon, e certamente mais fiel ao mundo e espírito do amigo/inimigo George do que Game of Thrones alguma vez foi. Juro que vou ver quando não estiver jet-lagged e constipada e o meu cérebro estiver capaz de prestar a atenção devida.
Tenho estado a acompanhar a nova temporada de The Pitt na HBO, que começou mais assim-assim mas, meu deus, estes dois últimos episódios já me estão a trazer aquela ansiedade fantástica que tanto marcou a primeira temporada. A filha do Bryan Cranston está a fazer expressões faciais que nunca foram feitas. O Noah Wyle está a fazer escolhas de actuação diabólicas (sim, acredito que o Dr. Robby esteja a dois ou três episódios de uma tentativa de suícidio). A Dr. Santos é espiritualmente uma filha do Karev de Grey’s e portanto estou a defendê-la contra todos os haters.
Comecei também a ver Love Story: John F. Kennedy and Carolyn Bessette na Disney+. Porra, que título longo. Como acho que sabem, o Ryan Murphy está no top três da minha blacklist televisiva por crimes cometidos contra a sanidade mental da Rita de 15 anos no Glee. Mas não resisti a ver esta série. É muito esteticamente agradável. Dados os factos reais, está também prestes a tornar-se trágica.
DESRECOMENDAÇÕES
Chuva. Eu sei, eu sei, precisamos de aguinha e vamos reclamar da seca quando chegar Agosto. Mas pelo amor de Deus, venha o sol e a Primavera. Para os que não sabem, sou oriunda da grande metrópole que é a Marinha Grande (classe operária forever), ground zero para a tempestade Kristin o mês passado. Portanto, não, não recomendo 48 horas sem conseguirem entrar em contacto com os pais a ver notícias que se tornavam mais dramáticas ao minuto. (Que estão bem, para que conste. A coisa mais dramática que aconteceu foi a máquina de secar da minha mãe, que estava na marquise/varanda, voar rua fora assim ao nível do segundo ar e acabar destruída num descampado ali mais à frente.)
Andar de avião. Também não recomendo 7 horas dentro de um avião se tiverem uma altura tipo a minha. Não há posição confortável. Se for um red-eye então ainda pior, porque não consigo mesmo dormir.
Alergias. Quero também reclamar da combinação fantástica de rinite alérgica e sinusite, fenómeno que faz com que ande entupida do nariz de Novembro a Abril.
“Wuthering Heights”. Não vou falar do Wuthering Heights (versão filme da Emerald Fennell) porque já lhe dedicámos demasiado espaço no último episódio do Mil-Folhas por isso se quiserem vão lá ouvir.
Calendário dos Óscares. A minha última reclamação é que os Óscares deveriam, no máximo, acontecer em fins de Fevereiro. Esta awards season já dura há demasiado tempo, e agora tenho que levar com o Timmy a ser cancelado por dizer que ópera e ballet são coisas que não estão abertas às massas (uma afirmação completamente correcta2). E sim, o Timmy devia ganhar o Oscar este ano — o Michael B. Jordan é muito giro mas não é metade do actor. Desculpem. Mais importante ainda, tenho a certeza que os responsáveis pelo trailer do Dune 3 estão à espera dos Óscares para saberem se podem incluir “Academy Award Winner Timothée Chalamet” no dito trailer e portanto, lançar o trailer. E malta, eu preciso muito do trailer do Dune 3 na minha vida. Vai curar-me a rinite alérgica e tudo.
CÔDEA DA SÓNIA
Manda uma tradição antiga (inventada há uns anos por mim) que em Março se passem vários dias numa bela cidade italiana. Este ano calhou Florença: é beira-rio Arno, num dia de Sol que já parece Primavera, que vos escrevo estes parágrafos.
Em Fevereiro fui assistir o um concerto Candlelight de O Senhor dos Anéis, com um quarteto de cordas impecável que me fez querer voltar a tocar um instrumento musical (depois lembrei-me do martírio que era estudar as pautas e fiquei-me só pelo gosto de apreciar e ouvir intérpretes talentosos). Disclaimer: as velas destes concertos são falsas e não possuem chamas, só uma luzinha que parece muito real mas vem de uma pilha. Isso foi um descanso, porque via muitos pavios nas fotografias e dei por mim a temer o potencial inflamável deste plano de sexta à noite.
Adorei cada momento. Se fechássemos os olhos podíamos ver o Sméagol aos saltos pelos pedregulhos, a Irmandade do Anel ainda completa, o Aragorn a ser absolutamente sexy sem sequer tentar no campo de batalha, o Legolas a lançar flechas dos penhascos, os anões a brandir machados e barbas épicas e os orcs a escavacar nas profundezas. Foi mágico e repetia uma vez por mês.
Conversas de Miguel, com o Pedro Teixeira da Mota e o Carlos Coutinho Vilhena, voltou a encher Campos Pequenos. Eu estive lá (num lugar com muito má visibilidade, que a ordem não é rica) e voltei a rir-me muito da dinâmica dos dois. Bónus extra para a participação do Kikoishot, pessoa que realmente aprecio desde os primórdios da Internet e que me faz rir com frequência quando me aparece nos feeds.
Entrei nas últimas páginas da releitura de O Monte dos Vendavais e assumo que, talvez por trauma, tinha recalcado todas as informações sobre a segunda geração de putos traumatizados e estranhamente primos. Cathy, Hareton e Linton (que leio sempre como marca de chá) são todos insuportáveis ao seu jeitinho, tal e qual os seus piores progenitores. Mas se esta releitura me ensinou algo (além da existência dos putos todos) foi que a história é muito mais sobre trauma passado de geração em geração do que sobre amor e sentimentos bonitos, figurantes que aparecem muito pouco (menos ainda do que o brinco e o dente de ouro do Jacob Elordi no filme).
O cinema tem sido uma agradável surpresa: vi One Battle After Another, com o Leonardo DiCaprio (o meu actor favorito desde que vi o Titanic, com seis anos), e tive de parar para respirar algumas vezes. Adorei o Marty Supreme (e não me venham com conversas que ah e tal, mas o Timothée tem buço de leite, que eu sou a favor da liberalização do uso do bigode e da adopção responsável da pilosidade facial quando bem tratada); e não desgostei da adaptação do Frankenstein.
Vi pela primeira vez o Eyes Wide Shut, com um Tom Cruise bebé e uma Nicole Kidman que sempre foi linda, que já antes de ser linda era linda. Aquela noite inacabável em que ele visita o mítico hotel, vestido com uma capa e uma máscara, fez-me lembrar um dos meus muitos fever dreams. Tive de desviar os olhos várias vezes, que eu não tenho coração para suspense.

Em Fevereiro descobri o conceito de suor de palco: comecei a fazer standup comedy e actuei pelo menos uma vez por semana, algumas vezes duas, até agora. Não sei onde este caminho vai dar nem posso afirmar que não é só uma estrada sem saída – mas o trajecto tem sido uma montanha russa para o ego, uma merda para as horas de sono, um catalisador para a bateria social. Em suma, muito divertido! Quem sabe um dia nos possamos cruzar por aí num ambiente de piadolas, leitor do Miolo?
DESRECOMENDAÇÕES
A guerra. Má a todos os níveis: mata, aleija, destrói vidas, polui o ambiente, faz uma barulheira desgraçada, cancela voos e planos, enche bombas de gasolina, aumenta os preços de tudo e mais houvesse, espalha o ódio, tira a esperança na humanidade. Acabem lá com isto. Deixem-me sonhar com um mundo onde as mulheres tomam as rédeas desta brincadeira e acabam de vez com os mesmos homens de sempre a brincar aos soldadinhos.
Procurar casa. É um processo muito complicado e burocrático. Ir ao banco, simular créditos, avaliar imóveis, submeter análises de risco: eu sabia lá que de repente ia ter de saber o que era uma Euribor e um spread. Por mim um spread era para sempre um creme de barrar e a Euribor uma burra que aparecia num anúncio de televisão muito antigo.
Chegámos ao fim do 10.º Miolo. Se chegaste até aqui (mesmo que tenhas saltado parágrafos ou revirado os olhos ou bocejado uma vez ou outra), estamos mesmo muito agradecidas.
Esta é a Miolo,
uma newsletter mensal para transformar domingos preguiçosos (ou, melhor, o segundo domingo de cada mês) num banquete de artes e letras. Pensa em nós como aquelas amigas que sabem sempre onde estão a acontecer os eventos culturais mais fixes, têm as melhores recomendações ou reclamações de livros e não perdem uma estreia no pequeno ou no grande ecrã.
Nota da Raquel: Sinto-me traída… Ou eu esqueci-me de te dizer que estou a ver e a adorar, ou não sou uma pessoa em quem confias…
Nota da Raquel: Não foi isso que ele disse. O que ele disse foi que são formas de arte das quais ninguém quer saber – o que é completamente incorrecto. Em Portugal, ainda por cima, até há ballet por streaming em salas de espectáculos! E sim, normalmente os bilhetes são caros, mas quem gasta num concerto da Taylor Swift ou de outra estrela megalómana também pode gastar na ópera e no ballet. Desculpa… também estou a cancelar o Chalamet. Até podia estar nas minhas desrecomendações, mas pronto, depois seria hipócrita porque também estou à espera do trailer do Dune.








